sexta-feira, 16 de maio de 2014

20 anos sem Sérgio Sampaio





Em homenagem aos 20 anos sem Sérgio Sampaio, o blog reproduz a matéria do jornalista Leandro Reis do jornal GazetaOnline que destaca as homenagens que serão realizadas este ano para o genial maldito Sérgio Sampaio:


Visceral, poeta, gênio. Incompreendido, injustiçado, marginalizado. Turrão, teimoso, irascível. Maldito. Os epítetos para definir Sérgio Sampaio são muitos, e nenhum deles dá conta da figura mítica do músico cachoeirense. Os clichês, na verdade, vêm feito muletas, no amparo do desconhecimento de uma obra faustosa, ainda relegada ao subterrâneo do imaginário nacional. Vinte anos após sua morte – ele foi vítima de uma crise de pancreatite, derivada do abuso de álcool –, completados hoje, uma série de projetos têm tentado resgatar do limbo o nome de Sampaio, desde shows com seu repertório e página na internet a gravações de faixas inéditas.

O movimento coletivo de revisita a Sampaio conheceu início forte em 1998, quando Sérgio Natureza, parceiro e amigo do capixaba, reuniu nomes como Lenine e João Bosco no “Balaio do Sampaio”. Daí vieram discos relançados por Zeca Baleiro, shows dentro e fora do Espírito Santo, bloco de carnaval e festivais em tributo ao conterrâneo de Rubem Braga.

Agora, uma nova safra de projetos bate à porta do segundo semestre deste ano. Quase todos têm o dedo de João Sampaio, filho do cantor. A iniciativa mais completa é o site “Viva Sampaio”, que pretende compilar depoimentos de amigos e familiares, análises da obra, manuscritos e outros materiais. O projeto deve sair em dois meses. “As pessoas se sentem incomodadas com o fato de o Sampaio não ter o reconhecimento que ele merece. É aquela coisa a que nós estamos acostumados aqui: o sentimento de falta de memória”, opina João.

O filho de Sampaio é o motivo da faixa “Menino João”, lançada de modo inédito na web, na voz de Inara Novaes, arranjos de Tiago Gomes e direção musical de Daniel Obino e João Sampaio. A música nasceu em 1984, um ano após o nascimento do filho no Rio de Janeiro. “Quando eu estava com ele, era a minha libertação. Não tinha hora pra nada: comia bala o dia inteiro, almoçava às quatro da tarde, tomava refrigerante antes do café da manhã. Ele me permitia viver a vida desregrada que ele vivia.”

João lembra que, apesar do nome de Sérgio Sampaio gravitar em seu personagem controverso, sua convivência com o pai revelava uma figura muito mais humana do que mítica. “Ele sempre foi superatencioso, até quando foi morar na Bahia. Em casa, não havia esse personagem meio Tim Maia. Sampaio foi o cara que me iluminou com as música dele”, diz Um lançamento que apreende a humanidade de Sergio Sampaio é a biografia “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, de Rodrigo Moreira, com terceira edição planejada para a segunda metade do ano. O biógrafo atribui o recente interesse pela obra do capixaba a seu aspecto contemporâneo.

O material que ele escreveu não está datado. Letra e música podem ser absorvidas hoje sem soar anacrônicas”, explica Rodrigo. Para o autor, Sampaio vagou pelas ruelas da MPB por sua postura diante do controle mercadológico. “Ele não era fácil de se dobrar aos esquemas comerciais. Não se vendeu, continuou fiel a seus princípios, à sua própria história. Com o tempo, as gravadoras não deram mais chance pra ele.”

Rodrigo afasta a pecha de “maldito” do compositor cachoeirense. “Isso fazia sentido em 1970, mas depois se tornou uma coisa prejudicial. Sampaio não é ‘maldito’, não. Ele é um bendito.”

Os lançamentos

Biografia
A terceira edição de “Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua”, de Rodrigo Moreira, lançada pela primeira vez em 2000, está prevista para sair no segundo semestre deste ano. Ampliada, a obra terá novas informações e outros depoimentos de quem conviveu com Sampaio.

Documentário
O jornalista Chico Regueira está produzindo um documentário sobre a vida do músico capixaba. A ideia de Regueira, segundo o filho de Sampaio – óbvio colaborador do filme –, é finalizar ainda em 2014 e lançar “na marra” em breve.

EP
De três dias de gravações em um estúdio carioca, nasceu um EP com seis músicas de Sampaio, metade na voz de Inara Novaes e a outra parte comandada pelo violonista Tiago Gomes. O disco também deve sair neste ano, com alguns shows para divulgação.

Site
Principal projeto entre os tributos a Sérgio, o site “Viva Sampaio”, ainda em construção, vai reunir cifras, videoaulas, depoimentos, análises, documentos, fotos e vídeos do cantor. Para o conteúdo todo ficar pronto, segundo o filho João, faltam cerca de dois meses de trabalho. Acesse: vivasampaio.com.br

Turnê
Após dois shows em abril, Chico Salles volta em junho ao Estado para apresentar “Sérgio Samba Sampaio”, em Linhares (dia 06), Montanha (dia 07) e Afonso Cláudio (dia 08).

Vinil

Um show que Sérgio Sampaio fez no Cine Metrópolis, na Ufes, em 1993, vai virar disco de vinil. O lançamento está em fase de captação de recursos, mas deve acontecer ainda em 2014.



Show realizado ontem em Porto Alegre homenageando Sérigio

domingo, 21 de abril de 2013

Febre do Rato:Um manifesto libertário, por Paulo Marques




Este sensacional filme  ganhou o prêmio de Melhor Filme do Festival de Havana, encerrado na sexta-feira (19/04/2013)



Nesse final de semana assisti o filme Febre do Rato, de Cláudio de Assis ( autor de Amarelo Manga e Baixio das bestas) . Realmente  Febre do Rato é um filme fantástico, um verdadeiro  manifesto libertário. O tema central é a vida de um poeta anarquista do Recife. Um  "marginal", exemplo daqueles que  permanecem à margem; que não se integram e encaixam nos modelos ditos "corretos", "únicos",  que não aceitam o maniqueismo do "bem" e "mal" , "certo" "errado" do sistema opressivo que vivemos.

Ousamos  dizer que os "marginais", poetas, "loucos", "subversivos", "radicais", são os que mais se aproximam do que poderíamos identificar como aqueles que vivem uma vida libertária, humanamente emancipada como diria Marx e  demasiadamente humana,  como diria Nieszche.

Febre do Rato é uma expressão popular típica da cidade do Recife que designa alguém quando está fora de controle, alguém que está danado. O filme conta a história do poeta anarquista Zizo, que publica um tablóide como o nome de Febre do Rato auto-organizado e financiado por ele próprio, para divulgar sua poesia.  A história se passa na periferia do Recife e é inspirada em um poeta real também de nome Zizo, entretanto, o filme não é uma cinebiografia, mas a representação, em forma de ficção, de muitos  artistas como ele,  sempre presentes nas margens da  sociedade, cindida entre os "incluídos" no sistema e os "excluídos". O filme é uma homenagem aos "Zizos" que vivem, criam e incomodam, pois suas  vidas e historias demonstram que a vida é bem mais do que aquilo que querem nos fazer crer que seja a "correta","do bem", desde que nascemos. É um grito de liberdade e um soco na cara dos conformistas.

Em uma das cenas quem Zizo conversa com seu amigo no bar, diz o poeta:
  
" ...As pessoas ficam falando em futuro, mudança, mas não estão nem aí pras 
 coisas que realmente contam... Perderam a capacidade de espernear para as coisas mudarem, desaprenderam.."
 
Ao assistir o filme foi impossível não pensar na canção de Sérgio Sampaio,"Cada lugar na sua coisa", onde o poeta canta "Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada".   O poeta Zizo representa, literalmente a poesia na calçada, de que nos fala Sampaio.




Anarquista e por essência libertário,o personagem Zizo vive a liberdade do ser e do fazer, do  amor livre, da criação, dos sonhos vividos na sua própria realidade. O Poeta como um Epicuro do século XXI, vive cercado de seus amigos e admiradores; sua casa é como o jardim do filósofo da alegria, onde constrói sua arte e sua vida de liberdade, sua, e dos seus amigos.

O filme  Febre do Rato  fala de liberdade, mas no sentido mais profundo do termo, que não se confunde com a liberdade liberal-burguesa, limitada à lógica do interesse egoísta, que se resume à manutenção do "direito" a propriedade privada e a exploração do homem  pelo homem. A liberdade do poeta Zizo é a liberdade/libertária do indivíduo que só tem sentido no coletivo, na comunidade, no comúm". Poderíamos falar  que a casa e os amigos de Zizo conformam uma "comuna da liberdade/libertária", um micro cosmos de uma vida de poesia, alegria, solidariedade e liberdade.

Nesse ambiente não há espaço para o individualismo de tipo burguês, baseado na lógica do homem egoísta e isolado dos outros homens e da comunidade;  no homem lobo do homem, que caracteriza a nossa sociedade dos "incluídos". Na "comuna" do anarquista Zizo só há lugar para a amizade, para a festa e a poesia, que é também trabalho autogerido, o amor é livre; livre de preconceitos de idade ( no filme o poeta  se relaciona com uma mulher mais velha); livre de preconceitos de gênero ( é emblemático no filme  o amor entre o amigo de Zizo e um travesti); uma liberdade que ao contrário da lógica "Liberal" não se encerra com a liberdade do outro, mas começa com a liberdade de todos.

Por isso podemos dizer que o filme de Cláudio de Assis é um filme inequivocamente  político, no sentido do político como possibilidade de práxis emancipatória. Uma  emancipação humana como escopo do político, o que implica que o homem é o responsável pela sua emancipação, como possibilidade de um vir a ser libertário. Portanto, falar em emancipação implica falar em auto-emancipação, como um processo de auto-constituição e auto-determinação de subjetividade que é,  a um só tempo social e individual  e,  portanto, práxis libertária. 

Febre do Rato é, nesse sentido,  uma obra libertária, sobre vidas libertárias e auto-geridas,  que são antagônicas à sociedade do controle, da necessidade, da burocracia, da hierarquia, da opressão, da exploração,  da alienação.

O filme termina , como não poderia deixar de ser em um filme político,  mostrando o conflito,  concreto, entre lógicas, "visões de mundo" e prática de vida" que são antagônicas.  De um lado estão os "loucos" anarquistas, libertários,  que se reunem no dia da "independência" ( outra sacada genial do filme), para defender a sua independencia- Independencia em relação à sociedade da opressão e da exploração. Ocupam o desfile de 7 de setembro gritando:

"Somos anarquistas sim!!! Estamos aqui parque até a anarquia precisa de tradição...
...Queremos o direito de errar!!!!

O grito  do poeta afronta o "direito".

Absurdo, reivindicar uma "tradição" anarquista? Nada mais libertário do reivindicar o que não existe,  o que não é aceito. Nesse sentido, o poeta anarquista diz que é preciso uma tradição de liberdade, eis a mensagem.

 Do outro lado o "Estado Democrático de Direito", zelando pela "sociedade" e a "moral", o instituído, não permite o "erro". O "certo" existe para acabar com o "errado", a coerção do Estado se legitima por cumprir esse papel "institucionalizado"

 "Subversão", "Atentado violento ao pudor"; o aparato repressor do Estado age e  o poeta é preso e jogado no rio( eis a metáfor a da condenação sumária aos "incuráveis"). A liberdade tem limites na sociedade de classes, eis a mensagem.

Corte rápido para a "comuna de Zizo", a vida continua, os libertários não precisam de líderes, os libertários tem a sua vida, continuam na margem, Zizo está vivo em cada um de seus amigos, nos poetas que continuam subvertendo a lógica da vida "normal"; Zizo está vivo em cada ato de liberdade/libertária, de grito contra a hipocrisia. É ali, na margem,  que os libertários exigem o seu direito de errar..., seu direito à ser livre...



 O cineasta Pernambucano Claudio de Assis


Sobre o Diretor Claudio de Assis

Cláudio Assis nasceu em Caruaru, Pernambuco, onde  iniciou sua carreira como ator e cineclubista em sua cidade.
Desde seu primeiro longa-metragem "Amarelo Manga", em 2002, já demarcava seu estilo próprio de fazer cinema, sempre incluindo em seus filmes elementos da cultura pernambucana. Reunindo um grande elenco (Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Leona Cavalli, Dira Paes, Chico Diaz), o filme é premiado nos Festivais de Berlim, Toulouse e Havana. No Festival de Brasília, venceu 7 prêmios, incluindo o de melhor filme pelo júri oficial. No Cine Ceará, vence todos os prêmios, e ganha notoriedade no cinema nacional.
Quatro anos depois, seu segundo longa-metragem, "Baixio das Bestas" (2006), faz um retrato sem concessões do machismo e da violência sexual na Zona da Mata pernambucana e se consagra como o primeiro filme brasileiro a vencer o Tiger Award no Festival de Roterdã.
"Febre do Rato", seu terceiro longa-metragem, é o primeiro rodado em preto-e-branco e venceu oito prêmios no Festival de Paulínia, incluindo o de melhor filme pelo júri oficial.

sábado, 13 de abril de 2013

Humano, demasiado humano, Sérgio Sampaio Vive.




Hoje é aniversário do Sérgio Sampaio. Qualquer coisa que possamos ou queiramos falar sobre o talento e a magia deste compositor capixaba será pouco. Sérgio é daqueles artistas singulares, que deixa marcado no tempo a beleza de sua arte, a poesia e a música. Um trovador, cantautor, como dizem os espanhóis. Esteve a frente de seu tempo, e só agora começa a ser reconhecido pelas novas gerações da música.

Este blog foi criado para homenageá-lo e para divulgar sua obra e de outros artistas que estiveram à margem dos  grandes esquemas e negócios da industria cultural, que transforma arte em mercadoria. Sérgio nunca se vendeu ou aceitou "entrar" no sistema e por isso sua arte esteve muitas vezes inacessível ao grande público. Sérgio vive em sua obra e em todos aqueles que tem sua vida como referência de liberdade, arte, inteligência, política, poesia...


Sérgio estaria completando 66 anos de idade. Morreu como muitos grandes talentos sem o merecido reconhecimento, mas hoje, se torna imortal pelo que criou que continua a frente de nosso tempo. Característica dos genios? Pode ser, mas com certeza uma genialidade que acima de tudo reflete uma humanidade extrema, humano demasiado humano, como diria Nieszche, esse era Sérgio Sampaio.

Para conhecer a história deste grande compositor da nossa MPB na biografia escrita por Rodrigo Moreira "Eu quero é botar o meu bloco na rua"


Abaixo destacamos algumas das belas canções de Sérgio:




 Para homenageá-lo postamos hoje também , além de alguns videos de suas músicas um documentário muito bonito sobre a poesia da música brasileira, "Palavra (En)cantada, produzida em 2008.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

FESTIVAL SÉRGIO SAMPAIO 2013



Enviado pelo amigo Alípio:

Esse lindo evento está chegando! A programação do Festival Sérgio Sampaio tá demais! tudo vai acontecer neste sábado, 13 de abril, dia em que Sérgio Sampaio estaria completando 66 anos.

A programação está toda concentrada no Cine Metrópolis. Vitoria ES, a partir das 13h. Ouça o Programa Toca-discos, hoje a partir das três da tarde na Universitária FM, 104,7 ou universitariafm.ufes.br

A programação terá ainda Cartunistas, debates, videoclipes oficiais, documentário, e artistas capixabas fazendo releituras de algumas das grandes obras do Sérgio Sampaio.

Não perca!

Maiores informações https://www.facebook.com/sergiosampaiofestival?fref=ts

Overdose de talentos

Foto realizada com os músicoos do III Festival de Música Popular Brasileira, Teatro Record-Centro, quando Edu Lobo ganhou com "Ponteio", 1967. Uma foto histórica que mostra a reunião dos maiores talentos da nossa Mṹsica Popular Brasileira. Nela podemos ver: Nara Leão, Sidney Miller, Rita Lee, Marilia Medaglia, Edu Lobo, Chico Buarque, Nana Caymmi, Sergio Ricardo, Roberto Carlos, Caetano Veloso, MPB4, Beat Boys, Gilberto Gil e Geraldo Vandré (arquivo Luís Avelima) — com Nara Leão, Sidney Miller, Marilia Medalha, Edu Lobo, Chico Buarque e Caetano Veloso

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fernanda Montenegro e Daniel Oliveira interpretam "Maiúsculo", obra prima de Sérgio Sampaio em especial de fim de ano na TV


 Fernanda Montenegro e Daniel de Oliveira mostraram todo seu talento musical para o especial de fim de ano "Doce Mãe". Os atores entraram em estúdio para gravar, entre outras canções,  ‘Maiúsculo’, de Sergio Sampaio, no programa que a Rede Globo exibiu no dia 27 de dezembro.


 Quem assistiu ontem o especial de fim de ano  da Globo, "Doce Mãe", protagonizado por Fernanda Montenegro, produzida pela Casa de Cinema de Porto Alegre e dirigido  pelo talentoso Jorge Furtado teve o privilégio de assistir uma linda cena onde Fernanda Montenegro e Daniel de Oliveira cantam uma das mais belas canções de Sérgio Sampaio, "Maiúsculo". Essa canção só foi gravada postumamente a partir da descoberta de gravações inéditas de Sérgio Sampaio feita por Zeca Baleiro para o disco póstumo "Cruel", lançado em 98 que traz todo o talento de Sérgio.
 A canção  "Maiúsculo" é  mais uma de suas obras primas que podem ser descritas como autobiográficas, falam de suas angustias, seu modo de ver o mundo, que retratam  a vida do artista dele e de muitos outros; criador  e criatura de sua arte, uma arte baseada na liberdade, nos sonhos, medos, angustias : "Vive ao avesso/Medo conhece bem/Sem endereço/Como é que pode/ Não fazer mal também".
"Sou o que sou" é o recado de Sérgio presente em muitas de suas canções. A independência, o não aceitar o que é dado assim como o  reconhecimento de seus "vícios", explicitam o Sérgio Sampaio à margem do sistema que pretendia e pretende "enquadrar" a todos. Ele sabe o que precisa, o que toda pessoa necessita, o carinho para não perder o sentido da vida: Solto meus bixos/Pelas músicas quando me aflijo/Mas um homem sem esse feitiço/E sem um carinho a que recorrer/Pode matar/Querer correr/Pois perdeu todo sentido de viver. Sérgio fala no "sentido de viver" , no carinho,  tudo que ele buscou em sua música e que é a expressão dos mais profundos sentimentos sempre presentes nos seres humanos.

Na cena o mendigo/artista/ser humano/ declama " Tenho meus vícios/Vivem dentro de mim esses bixos/São o pai e a mãe dos meus lixos/E às vezes me levam de mal a pior/Pergunto quem/Não sabe disso/Os momentos em que a vida não tem dó..."

A cena termina com os dois cantando o trecho " Quase não dorme/Vive ao avesso/Medo conhece bem/Sem endereço/Como é que pode/Não fazer mal também..."

 
Maiúsculo ( Sérgio Sampaio)


Como é maiúsculo
O artista e a sua canção
Relação entre Deus e o músculo
Que faz poderosa a sua criação
Pensando bem
É um mistério
Como é misterioso o coração

Como é minúsculo
O olhar de quem vive no escuro
Um sujeito malvado e burro
Alguém machucado como não ter um bem
Não tem porém
Mas tem um tédio
Não ser vítima do assédio de ninguém

Quase não dorme
Vive ao avesso
Medo conhece bem
Sem endereço
Como é que pode
Não fazer mal também

Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bixos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó

Solto meus bixos
Pelas músicas quando me aflijo
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer correr
Pois perdeu todo sentido de viver



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Lançada nova edição da Biografia de Torquato Neto



Neste mês de novembro que  foi lembrado os 40 anos do suicídio de Torquato Neto, o "anjo torto" da Tropicália, o jornalista Kenard Kruel lançou a 3 Edição da mais completa biografia de Torquato.

Os bons morrem cedo...

Com apenas 28 anos de idade, o poeta/compositor/agitador cultural/jornalista e um dos mentores do tropicalismo, junto com Caetano e Gil, teve, como muitos gênios uma vida breve, mas que ficou  marcada até hoje pelo que criou e inspirou.

Em outubro passado publicamos um post em nosso blog em homenagem à Torquato : http://viajeidetrem.blogspot.com.br/2012/10/existirmos-que-sera-que-se-destina.html, contando um pouco deste "maldito" e sempre atual poeta brasileiro.

Torquato se destacou pela irreverência e rebeldia. “A vida breve, mas fecunda, de Torquato Neto é uma síntese da grandeza, mas também dos abismos que definem a cultura alternativa e rebelde dos anos 60 e 70”, diz o escritor José Castello. A sua rebeldia figurava também em sua aparência. Seus cabelos compridos e roupas ao estilo hippie o configurava como um homem que recusava o mundo que vivia. “Ele tinha a vontade de destruir o mundo para, nesse mesmo gesto, fazer o parto de um novo”, acrescenta José Castello


Uma semana antes do AI-5 (o famigerado Ato Institucional nº 5, que tirou dos brasileiros todos os seus direitos constitucionais), Torquato foi contemplado com uma bolsa de estudos para escrever sobre as influências africanas na MPB. Assim, viaja para os EUA e Europa no final de 1968. Em Londres ele encontra com os baianos Caetano e Gil, em exílio político, depois da prisão no Brasil.  Entre outras coisas, conta que um dia foi visitar Jimi Hendrix em seu ap e o encontrou ouvindo “aquele álbum branco dos Beatles”. No final de 1969, volta ao Brasil rompido com os baianos.
 Sua morte foi uma retirada inesperada. Na madrugada de 10 de novembro de 1972, 1 dia após completar 28 anos, ele e sua mulher, Ana Maria dos Santos e Silva, voltaram de uma festa. Ela foi dormir. Ele trancou-se no banheiro, ligou o gás e suicidou-se. Deixou o seguinte bilhete : “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega ! Não sacudam demais o Thiago (seu filho de 3 anos), que ele pode acordar”.

Quem conhece bastante Torquato Neto é seu primo e admirador , George Mendes, tinha apenas 14 anos quando Torquato se suicidou. Em entrevista publicada no blog do jornalista Kenard, George falou um pouco sobre seu primo Torquato:

 Bom, eu costumo dizer que o Torquato é um artista multimídia. Provavelmente, um dos maiores artistas multimídia do Brasil e o primeiro do Piauí. Torquato trabalhou em música, no cinema, literatura e exerceu o jornalismo cultural durante muito tempo. Ele é uma artista de várias linguagens, que são sintetizadas na poesia. A sua essência era a poesia. E como poeta foi compositor, ele compôs letras de música, ele morreu sem deixar um livro publicado de poesia, propriamente dita, mas tem dois livros a serem publicados. Atuou como cineasta, ator, roteirista e artista plástico. Uma coisa que é instigante no Torquato é a gente lembrar que ele morreu tão jovem e construiu uma obra tão instigante, tão vasta e ao mesmo tempo tão quantitativamente pequena. Em dez anos, ele foi capaz de construir uma bora tão inovadora, de tal forma que ela conseguiu se eternizar no tempo. Para você ter uma ideia, as obras de Torquato foram construídas em uma trajetória que começa em Teresina, vai a Salvador, Rio de janeiro, São Paulo, Londres, Paris e Rio, onde ele terminou falecendo...

... Ele era um artista singular, ele não apenas dizia o que ele achava que devia ser feito, ele fazia. Então foi um homem que deu o seu testemunho da concepção artística, do seu fazer artístico, assinando a vida com a própria morte. Se existe uma coisa permanente na obra dele, era essa dualidade entre morte e vida. O Torquato dizia que a morte era o começo de tudo. Ele era filho de um espírita, o pai e de uma católica, a mãe. Ele não escolheu nenhum dos dois, juntou as duas coisas em tudo. Para ele, viver era morrer e morrer era viver, e ele fez isso de uma forma que espantou a todos. Se a gente for pensar nos padrões normais, como passa na televisão, Torquato era tão jovem, tão brilhante e morreu tão cedo e ao mesmo tempo podia ter tido uma carreira brilhante. Se pensarmos o que ele seria hoje, fico imaginando: será que a carreira dele o levaria para uma fama que ele nunca quis, o estrelato que ele nunca quis? Se continuando a vida, ele passaria a cantar? Eu digo que não, porque ele era desafinado. Ele não tocava um instrumento, mas tinha um ouvido extremamente musical. O Gil diz em uma entrevista que fazer música com Torquato era muito fácil, pois ele trazia a música muito pronta, a maneira que ele escrevia já construía a música. Ele sabia a palavra escrita, falada, e sabia o tempo das coisas. É um cara que se tornou importante para a cultura brasileira....


 ....O Torquato se tornou importante para a cultura brasileira, por conta dele, da vida dele, sem medir consequências convencionais. Com isso ele conseguiu se tornar um ícone da contracultura, da tropicália, com disposição de sempre contrariar as coisas. Então, ele nunca foi bonzinho. Ele tinha um jeito meigo e quieto, mas o Torquato era um vulcão criativo, ele nunca quis cultivar o estabelecido, nunca quis louvar aquilo que está na vida de todo mundo. Se você pegar os primeiros poemas de Torquato, você se espanta com a facilidade que ele tinha com as palavras, ele escrevia sobre tudo, escrevia compulsivamente e com uma qualidade impressionante sobre o que vinha na cabeça...

A entrevista completa com o primo de Torquato está no blog: http://krudu.blogspot.com.br/2012/11/torquato-neto-o-maior-multimidia-do.html


Os artigos de sua coluna na Última Hora (Rio de Janeiro, entre 1971 e 1972), ”Geléia Geral”, e poesias inéditas, foram reunidos no livro “Os Últimos Dias de Paupéria”, organizado por Waly Salomão e Ana Maria.

Para quem não conhece a história de vida e a rica obra poética e músical de Torquato, tem a oportunidade de conhecê-la nesta belo livro biografia do jornalista piauiense(conterrâneo de Torquato) Kenard Kruel(que vem pesquisando a vida e a obra  de Torquato a mais de 30 anos) que lançou a 3 edição, revista e ampliada da  biografia do poeta: O livro "Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida", uma obra de fôlego, com  mais de 600 páginas imperdíveis para quem já conhece ou quer conhecer Torquato Neto.




O Título é inspirado no poema "Todo dia é dia D" de Torquato


Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
há urubus no telhado
e a carne seca é servida
escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa, só escapo
pela porta da saída
todo dia é o mesmo dia
de amar-te, amor-te, morrer
todo dia é dia dela
pode ser, pode não ser
Todo dia menos dia
Todo dia é dia D


No Blog de Kenard,  www.krudu.blogspot.com (onde se pode encomendar o livro), encontramos um texto  de Everi Carrara apresentando a nova edição da biografia de Torquato:

O escritor piauiense KENARD KRUEL escreveu o livro TORQUATO NETO OU A CARNE SECA É SERVIDA. Um tijolaço de 622 páginas, abrangendo a vida e obra de Torquato Neto, poeta emblemático da Tropicália, que este ano faz 45 anos de história. O livro é imprescindível para os novatos e as gerações mais antigas que pretendem ler e saber um pouco mais sobre Torquato, o poeta suicidado a 10 de novembro de 1972 por essa sociedade ocidental, capitalista e hostil. É um trabalho de fôlego, pois imagino KENARD KRUEL se debruçando sobre fontes de pesquisas, pessoas, filmes e problemas. O legado de Torquato Neto pode ser também conferido pelas interpretações em discos de CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL, ELIS REGINA, EDU LOBO, GAL COSTA, LENA RIOS, GIL, TITÃS, ADRIANA CALACANHOTO e especialmente em NARA LEÃO (minha cantora preferida, que gravou "vento de maio" / "mamãe, coragem" / "deus vos salve essa casa santa"). KENARD KRUEL fez um verdadeiro levantamento sobre a cultura brasileira durante os anos de chumbo, pois Torquato era uma espécie de outsider, um poeta-cidadão em permamente risco contra a idelogia esquerdizante e os milicos. Lembra-me de certa forma pertencer a melhor linhagem espiritual de RIMBAUD, ARTAUD, NELSON RODRIGUES, OS BEATNICKS E ROBERTO PIVA. Ou seja, viveu intensamente os extremos, a vidência, não se enquadrava em modismos, em blá-blá-blá acadêmico para auferir altos salários em universidades e boquinhas governamentais.
Vivia na corda bamba. Era um poeta além, subvertia de fato, o coro dos contentes.
Assim como Nara, ele não fazia concessões ao bom gosto, não se curvava perante o bom mocismo. Caetano relata que "torquato era doce", o que me fez pensar mais na proximidade artística do poeta Torquato com Nara. Ambos meigos, corajosos, sutis, dinâmicos, revolucionários na forma e no conteúdo. Ambos suicidados pelo pensamento hegemônico do consumismo boçal.
Everi Rudinei Carrara: editor do site telescopio, músico profissional, escritor, agente cultural, membro da Abrace / uruguai-brasil, membro efetivo da academia Sala dos Escritores, professor de tai chi chuan.


Como não poderíamos deixar que mencionar a música que Sérgio Sampaio fez a partir de sua amizade com Torquato.

"Que Loucura" ( Sérgio Sampaio)






Cajuína, a bela canção que Caetano fez para Torquato Neto:

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Todo Mundo está Feliz aqui na terra

 Gênios: Raúl ( o produtor) e Sérgio Sampaio nos tempos da "Grã Ordem Cavernistica"

Todo Mundo está feliz aqui na terra foi uma das obras primas criadas pela parceria de Raul Seixas e Sérgio Sampaio no LP  "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10" gravado em 1971 nos estúdios da CBS no Rio de Janeiro pelo então produtor Raul Seixas. A "Grã Ordem" era formada pelo próprio Raul , Sérgio Sampaio, o cantor, dançarino e ator Edy Star (então conhecido apenas como Edy) e a cantora paulista Míriam Batucada.
Nesta canção como as outras do LP sobram ironia e crítica de grande conteúdo político, que na época nem todos conseguiram entender. Raúl e Sérgio sempre estiveram a frente de seu tempo.
Impossível não perceber a atualidade desta música que ironiza o "coro dos contentes" que acreditam mesmo que todo mundo está feliz...
 Raúl e Sérgio, sábios que nos fazem falta...

Todo Mundo está feliz aqui na terra ( Raúl Seixas e Sérgio Sampaio) 

Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra


Olho por cima das cortinas
por dentro das revistas
e vejo o meu sorriso no ar
estou na porta e na janela
na paz na calmaria
no disco voador do amigo


Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra


Hoje podia ser domingo
segundo de janeiro
pra mim vai dar no mesmo lugar
vai dar na minha alegria
eu não quero mesmo nada
eu não tenho nada a ver
com isso


Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra


olho por dentro das vitrines
do alto do edifício e
descubro o dia novo no céu
hoje é um dia como outro
esqueci o calendário no bolso da camisa


Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra
Todo mundo está feliz aqui na terra

 


O video que postamos aqui, editado por Eduardo Mota foi muito preciso em retratar o significado irônico da música.

Viajando de Trem com Sérgio Sampaio e Eduardo Vieira da Cunha




Procurando na internet uma imagem que retrata-se,  a fantástica composição "Viajei de Trem" de Sérgio Sampaio, encontrei uma das obras do pintor, fotógrafo, desenhista e gravador, Eduardo Vieira da Cunha. A foto me remeteu a um site que estava  divulgando uma exposição da obra deste artista http://www.bolsadearte.com/oparalelo/category/locais/outros-estado
Também na página, minha maior surpresa foi encontrar  um pequeno texto do próprio Eduardo, com o título "À procura de uma sombra do viajante",  onde escreve sobre o significado do "deslocamento" e da "viajem".
A leitura me remeteu imediatamente a Sérgio Sampaio, criador dessa genial canção, no qual ele interpreta a sua viajem...

À procura de uma sombra do viajante- Eduardo Vieira da Cunha

“Odeio viagens e viajantes”. Com esta frase, um negativo da viagem, Claude Lévy-Strauss se vacinava logo ao abrir o grande poema que representa “Tristes Trópicos”. Um livro do deslocamento filosófico, da filosofia em negativo. O que talvez o etnólogo odiasse mesmo era o desafio de descobrir o noturno do trópico, em vencer seus desafios, penetrar no escuro da mata e passar necessidades, sede e fome. O ganho, entretanto, era a obra em se fazendo.
Viagem, ficção e filosofia. Percursos.  Já que outros filósofos pareciam incólumes a tais dissabores dos viajantes, como Platão e Pitágoras, e se entregavam com prazer às deambulações da viagem didática e de compartilhamento do conhecimento, um terceiro grupo onde incluo também homens de letras se aborrecia com as viagens e o trato com o estrangeiro. Isso porque talvez eles não precisassem procurar o desafio do desconhecido. Encontravam o fascínio da viagem ali mesmo, dentro da própria cidade: Sócrates, que preferia viajar pelas ruas e as praças de Atenas. E Machado de Assis e Mario Quintana, flâneurs do Rio de Janeiro e Porto Alegre, respectivamente.
…Escolho exemplos de outras áreas para falar da vasta questão do deslocamento e da  viagem. Se é muito difícil tratá-los em um texto, muito mais o seria em uma singela exposição. Em todo o caso, sonhos, fotos, papéis soltos, objetos, mapas, itinerários, planos, traduções, desenhos e pinturas ajudam a pelo menos recompor o itinerário de uma viagem produtiva, ociosa positiva e negativamente.
…A imagem desse homem que esperava, esperando talvez a oscilação improvável do corpo do navio enterrado na areia, começou a me perseguir em desenhos e pinturas, além das fotografias.  O emblema de Borges é a ampulheta, aquele rio de areia que pode ser tanto o esquecimento como o elogio ao desprendimento (da areia). Navegando na areia, o homem poderia ter como livro de cabeceira um livro de Borges com o poema Elogio das sombras: “(…) tantas coisas. Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro. À minha Álgebra, meu código. Ao meu espelho. Logo saberei quem sou.”
A fotografia é feita de reflexos, de espelhos e de sombras. Depois desse ocioso exílio do litoral desértico, passei a procurar em outras viagens, reflexos e sombras perdidos:  Busquei na animada, iluminada e extravagante Nova York do final dos  anos 80, e na Paris de matérias sombrias e opacas, cidade noturna dos flâneurs  surrealistas. Não achei nem no lado do otimismo tecnológico, nem no lado da inquietante estranheza. Por isso insisto tentando na pintura. E parafraseando Cortázar, adoto sua máxima: a obra talvez importe, mas não impede de andar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Adiante Sampaio




Adiante ( Sérgio Sampaio)


Mais uma das obras primas do gênio Sampaio.
"Embora eu siga adiante
eu sempre fico onde eu passo
eu sempre deixo um pedaço de mim
embora eu siga adiante

e quando eu sigo adiante
eu levo comigo um bem
que é sempre o bem do meu migo
junto com o migo de alguém

e quando eu sigo adiante
eu sempre fico onde eu passo
eu sempre deixo um pedaço de mim
embora eu siga adiante...adiante...adiante."♫

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Não toco pra polícia"




(...) Eu tenho medo... e quem não tem? Na sociedade do "medo", isso é o que mais se tem, medo de bandido, medo de polícia... medo de dentista. Para falar de seus medos, que são medos de muita gente, Sérgio, da forma que só ele sabia fazer ao falar da vida real, do cotidiano, fez mais uma das suas geniais canções, que como muitas outras retrata sentimentos da vida de todos. "Polícia, bandido, cachorro, dentista foi composta, segundo Rodrigo Moreira a partir do pavor que Sérgio tinha de dentista. Na música ele enumerava esse e outros medos( e aversões) e os fazia interagir. Com sacadas geniais como  estas : " Porque dentista policia minha boca como se fosse bandido(...) e "Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro/ Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia/Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista"

A inclusão da Polícia em um de seus medos não é estranho, principalmente pelo que significava naquele período de repressão, o que, mesmo hoje, em plena "democracia", a polícia continua ainda com sua lógica de terror, principalmente em relação ao povo pobre. Sobre esse medo de Sérgio em relação a polícia Moreira diz " Essa bronca de polícia era antiga, vinha do tempo da ditadura. Em Piúna(ES), fins de 70, Sérgio interrompeu uma canja numa roda de violões ao descobrir que havia um policial à paisana no meio. Levantou-se dizendo: "Não toco pra polícia".( Moreira, R.(2003) Eu quero Botar meu bloco na rua!, p. 164)


A canção ficou inédita, já gravada por Sérgio,  vai compor o repertório do CD póstumo "Cruel" produzido por Zeca Baleiro.

Escute e delicie-se com mais essa genial composição de Sampaio:


Polícia, bandido, cachorro, dentista ( Sérgio Sampaio)

Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista
Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada com isso
Porque bandido quase sempre quando atira não acerta no que mira
Porque cachorro quando ataca pode às vezes atacar o seu amigo
Porque dentista policia minha boca como se fosse bandido
Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro
Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia
Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista
Dentista, dentista...


terça-feira, 9 de outubro de 2012

O operário do samba


 "Sei que minha música não é dançável, mas isso não me preocupa. O que procuro fazer é um trabalho verdadeiro, sem subterfúgios, que enfoque nossa problemática social e cultural"


"Um trabalhador braçal" , assim Sérgio Sampaio se auto-identificava nesta reportagem da revista POP, publicada em junho de 1977(outra relíquia enviada pelo amigo Alipio). A matéria intitulada " O operário do samba", sem assinatura, destaca  um pouco o período em que vivia Sérgio Sampaio e o  lançamento do seu compacto simples com as músicas "Ninguém Vive por Mim" e "História de Um Boêmio", essa última uma homenagem à Nelson Gonçalves, ídolo de Sérgio. 

Abaixo transcrevemos a matéria na íntegra:

O operário do samba

"Sérgio Sampaio não chega a ser um ídolo, nem tem a preocupação de forjar qualquer imagem como cantor ou compositor. Na verdade Sérgio se considera apenas um "trabalhador". Um trabalhador braçal como outro qualquer, que vive de seu ofício e de seu suor. Dentro deste esquema vai levando adiante suas propostas, procurando ser ouvido e entendido: "Sei que minha música não é dançável, mas isso não me preocupa. O que procuro fazer é um trabalho verdadeiro, sem subterfúgios, que enfoque nossa problemática social e cultural. Um trabalho urbano, enfim. Essa é minha música". Sérgio Sampaio andou muito sumido por uns tempos, mas desde seu LP Tem que Acontecer, lançado em agosto do ano passado, tem procurado desenvolver maior regularidade a seu trabalho. Surge agora com um compacto simples que traz duas músicas de sua autoria: Ninguém Vive Por Mim e História de Um Boêmio. Estas duas músicas farão parte do novo LP de Sérgio Sampaio que tem seu lançamento marcado para setembro. Apesar do esquema de trabalho cada vez mais difícil para o artista, Sérgio acha que tem alguma coisa para dizer e continua na briga. Como ele mesmo diz em Ninguém Vive Por Mim: "Fui posto de lado em tudo, marginal, enfim. Mas o pior dos temporais aduba o jardim" ( FOTO KAM)






Fui tratado como um louco, enganado feito um bobo
Devorado pelos lobos, derrotado sim
Fui posto de lado e fui um marginal enfim
O pior dos temporais aduba o jardim
Como um rato de bueiro, como um gato de calçada
Velho mendigo da rua, cão de butiquim
Disse adeus e fui embora, nada é mais ruim
O pior dos temporais aduba o jardim
E eu, boêmio cantor da lua
Doido que não se situa
Fui procurar viver além de mim
E eu, simples cantor solitário
Entre malandros e otários
Vivo o que sou, ninguém vive por mim
Tudo tem seu preço exato, ninguém vai pagar barato
Tudo tem seu peso certo, tudo tem seu fim
Escapei da armadilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim
Fui pro mato sem cachorro, numa de "ou mato ou morro"
Enfrentei um osso duro, duro de roer
Escapei dessa quadrilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim"

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Última esperança



O edifício Joelma, localizado na cidade de São Paulo, atualmente denominado edifício Praça da Bandeira,tornou-se conhecido nacional e internacionalmente quando, em 1 de fevereiro de 1974, um incêndio provocou a morte de 187 pessoa. Sérgio na ocasião, compôs uma canção( ainda inédita) chamada "Última esperança".
Como toda obra de Sérgio, os fatos da realidade servem para composições que falam muito mais do que o fato em si que lhe deram origem. Os versos originais dizem "Você que está em casa, um conselho vou dar, abra a janela, arrebente o portão... Quando num dado momento, sem ninguém esperar o fogo pode pegar..." Não podemos esquecer o contexto em que Sérgio estava, era o ano de 1974, período mais duro da censura e da represssão da ditadura militar. Mandar as pessoas "arrebentar o portão", porque o "fogo poderia pegar", serve muito bem como metáfora para o período. A última esperança é o vôo... a esperança de voar...


Última esperança ( Sérgio Sampaio) 

"Você que está em casa
um conselho vou dar
Abra a janela, arrebente o portão
Quando num dado momento
sem ninguém esperar
o fogo pode pegar...

Nem bombeiro pode apagar...
e é proibido fumar

Você tá cego, você tá doido,

Última esperança
Ultima esperança

Esperança de voar...



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Existirmos, a que será que se destina?: O legado do "anjo torto" Torquato Neto, por Paulo Marques

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"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."(Torquato Neto)


Neste ano de lançamentos de documentários sobre a Tropicália e filmes como  "Na estrada" , baseado na obra cult do Beat Jack Kerouac, o tema da "contracultura" volta a pauta, o que nos permite resgatar um período que parece ter  ficado no passado( a juventude atual que o diga) e  discutir o que significou a contracultura, como um movimento político-cultural que não só marcou uma época como deixou um legado que merece ser discutido/pensado pela geração de hoje.

Nesse sentido, que resgataremos neste post  a história e o legado de um dos maiores ícones daquele período de emergência da contracultura  no Brasil: o poeta piauiense Torquato Neto, que foi  um dos mais atuantes produtores da poesia e da cultura chamada "marginal" dos anos 70. No mês de novembro deste ano completará 40 anos de seu precoce falecimento.
 
 
"Um artista que viveu pouco, mas viveu intensamente...



Alguns estudiosos desse período apontam Torquato Neto como um dos mais representativos representantes das várias tendências da época, por muitos considerado o verdadeiro fundador deste estilo vanguardista da contracultura.

Torquato Neto teve uma morte trágica, suicidou-se aos 28 anos de idade no dia de seu aniversário em novembro de 1972. Ha 40 anos morria o "Anjo Torto do tropicalismo" o "poeta maldito" "agitador da contracultur". Ele não foi somente um grande ícone dos anos 60, mas sobretudo um dos cabeças do movimento tropicalista.

Como bem definiu o escritor José Castello "Com uma  vida  breve, mas fecunda,  Torquato Neto é uma síntese da grandeza, mas também dos abismos que definem a cultura alternativa e rebelde dos anos 60 e 70 (...)  A sua rebeldia figurava também em sua aparência. Seus cabelos compridos e roupas ao estilo hippie o configurava como um homem que recusava o mundo que vivia. “Ele tinha a vontade de destruir o mundo para, nesse mesmo gesto, fazer o parto de um novo”, acrescenta Castello.

 


Documentário curta metragem sobre Torquato Neto, realizado em 2010

Torquato Neto era filho de um defensor público (Heli da Rocha Nunes) e de uma professora primária de Teresina (Maria Salomé Nunes). Mudou-se para Salvador aos 16 anos para os estudos secundários, onde foi contemporâneo de Gilberto Gil no Colégio Nossa Senhora da Vitória e trabalhou como assistente no filme Barravento de Glauber Rocha.
Torquato envolveu-se ativamente na cena cultural da capital baiana, onde conheceu, além de Gil,Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethania. Em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo na universidade, mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no Correio da Manhã,Jornal dos Esportes e Última Hora.

Torquato, Caetano e Capinam


Torquato atuava como um agente cultural e polemista defensor das manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o Cinema Marginal e a Poesia Concreta, circulando no meio cultural efervescente da época, ao lado de amigos como os poetas Décio Pignatari,Augusto e Haroldo de Campos, o cineasta Ivan Cardoso e o artista plástico Hélio Oiticica. Nesta época, Torquato passou a ser visto como um dos participantes do Tropicalismo, tendo escrito o breviário "Tropicalismo para principiantes", onde defendeu a necessidade de criar um "pop" genuinamente brasileiro:
 "Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Torquato também foi um importante letrista de canções icônicas do movimento tropicalista.

 Foto da histórica passeata dos 100 mil realizada no Rio de Janeiro em junho de 1968 que reuniu vários artistas e intelectuais em protesto contra a ditadura( em dezembro do mesmo ano o regime se fecharia ainda mais com a decretação do AI-5). No primeiro plano, aparece Torquato Neto e ao seu lado estão Gilberto Gil e Nana Caymmi.

No final da década de 1960, com o AI-5 e o exílio dos amigos e parceiros Gil e Caetano, viajou pela Europa e Estados Unidos com a mulher Ana Maria e morou em Londres por um breve período. De volta ao Brasil, no início dos anos 70, Torquato começou a se isolar, sentindo-se alienado tanto pelo regime militar quanto pela "patrulha ideológica" da esquerda ortodoxa. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo, e rompeu diversas amizades. Em julho de 1971, escreveu a Hélio Oiticica:
 "O chato, Hélio, aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. Todo mundo virou uma espécie de Capinam (esse é o único de quem eu não gosto mesmo: é muito burro e mesquinho), e o que eu chamo de conformismo geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo, vanguardismo de Capinam que é o geral, enfim, poesia sem poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo parado, odeio."


O "Blogueiro dos anos 70" 
 
Poderíamos dizer que Torquato Neto foi uma espécie de "blogueiro dos anos 70". Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Todos que liam sua coluna podiam acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Para quem lê essa definição da música brasileira hoje parece uma ironia. Eram os anos de “Fa-Tal” de Gal Costa (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), “Transa” o (disco em inglês) cult do Caetano, “Construção” do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”. Lá fora, John Lennon estava de música nova: Imagine. E Torquato avisava seus leitores para se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem: o Pink Floyd (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso “The Dark Side of the Moon”). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto(influência que daria origem ao clássico “Acabou Chorare”).
Comparando com o que temos hoje na "cena cultural" brasileira é possível dimensionar o tamanho do "deserto criativo" que estamos atravessando....

No cinema, Torquato era do time dos “undigrudis”: Ivan Cardoso,Rogério Sganzerla e, claro, Zé do Caixão. Descia a lenha no cinema novo, de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que passaram a ser patrocinados por recursos federais(lembrem-se que viviamos o ínicio da longa noite de 25 anos de ditadura militar). Só poupava Glauber Rocha das críticas. E se empolgava com a tecnologia das câmeras Super 8. Torquato, um visionário, 40 anos antes de Youtube e das filmadoras digitais já  previa: todo mundo vai ser cineasta.

 Torquato Neto como o "Nosferatu brasileiro"


Sobre o legado da vida e a obra de Torquato Neto destacamos o livro “Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) que foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro (que devia chamar-se “Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu aniversário de 28 anos. Morreu sem publicar nenhum livro em vida. Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação” com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta tropicalista, amigos dos concretistas e admirador da poesia marginal de Chacal, então estreante.  Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida, deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da esquerda. Nasceu no tempo errado.
Torquato se matou um dia depois de seu 28º aniversário, em 1972. Depois de voltar de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás. Sua mulher dormia em outro aposento da casa. O escritor foi encontrado na manhã seguinte pela empregada da família.
Sua nota suicida dizia:

"Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de dois anos de idade.

Na época da morte de Torquato, Caetano que era seu grande amigo e admirador, encontrava se ensaiando com Chico Buarque o disco, que seria um marco da música chamado Chico e Caetano ao vivo no teatro Castro Alves. Caetano dissera após a morte, que na época da tragédia não conseguiu entender direito por estar muito concentrado no evento ( não entendeu de fato a perda) e que, inclusive, Chcio teria sentido muito mais no momento.

Passado algum tempo, Caetano passa em turnê por Teresina. O pai de Torquato Neto, sabendo da sua grande amizade que seu filho tinha com Caetano resolveu ir visitar o artista no hotel e os dois rumaram para a casa do Pai de torquato. Ao chegar na casa, Caetano entrou em prantos e afirmou que, naquele momento, teria entendido a perda do amigo.

O Pai de Torquato não falava nada, enquanto Caetano chorava e via algumas fotos antigas. Então, ele como cortesia serviu uma Cajuína, bebida típica e deliciosa da cidade de Teresina, e trouxe do seu quintal um pé de Rosa Pequena para Caetano.

Ao voltar ao hotel, Caetano havia composto uma linda homenagem ao seu grande amigo. Amúsica "Cajuína" não é somente uma música, ela é uma poesia-homenagem , uma cancão de despedida e à Torquato Neto. Essa história Caetano contou em um programa de TV.

"Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina
"


Lembrar de Torquato é também uma justa homenagem a este agitador da contracultura, "louco visionário", que é parte de uma geração de  "gênios malditos" como Raul Seixas, Tom Zé, Jards Macalé, Luiz Melodia e Sérgio Sampaio.
Da amizade de Sérgio Sampaio e Torquato Neto  que foi composta  uma das belas canções de Sampaio; a música  "Que Loucura", gravada no seu segundo LP "Tem que acontecer" de 1976 é uma homenagem a Torquato
No livro biografia de Sérgio Sampaio " Eu quero é botar o meu bloco na rua" , Rodrigo Moreira conta a origem da música :
" (...) O legendário "anjo torto" costumava relatar a Sérgio seus entra-e-sai de manicômios, quando fazia amizade com diretores, médicos e pacientes. Retornando sempre que desejava, Torquato encontrava seu quarto "reservado", com máquina de escrever e tudo o mais à sua disposição. Inspirado nas histórias, Sampaio compôs uma canção, gravada somente quatro anos depois, em homenagem a esse quixotesco personagem, que reverenciava. Na verdade, Torquato havia lhe entregado certa vez uma letra, dizendo: "Fiz um negócio pra você musicar". Sérgio leu e respondeu: "Pô, mas isso aqui não dá música". Torquato então lhe disse: "Faça assim mesmo, só pra nós dois(...)"(Moreira, 2003, p.76)

Que Loucura ( Sérgio Sampaio)

Fui internado ontem
Na cabine cento e três
Do hospício do Engenho de Dentro
Só comigo tinham dez
Estou doente do peito
Eu tô doente do coração
A minha cama já virou leito
Disseram que eu perdi a razão
Tô maluco da idéia
Guiando carro na contramão
Saí do palco e fui pra platéia
Saí da sala e fui pro porão...


Neste video Sérgio conta essa história sobre "Que loucura"


Os poemas-musicados de Torquato são cantados até hoje, vale lembrar a gravação pelos Titãs de Go Back , grande sucesso do grupo que deu título ao primeiro álbum ao vivo da banda. A poesia concreta de Torquato é uma das influências do cantor e compositor Arnaldo Antunes.


Go Back ( Torquato Neto )
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
Se passou, passou
Daqui pra melhor
Foi!
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder...(2x)
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
Se passou, passou
Daqui pra melhor
Foi!
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder...(2x)
-"Não é o meu país
É uma sombra que pende
Concreta
Do meu nariz em linha reta

Não é minha cidade
É um sistema que invento
Me transforma
E que acrescento
À minha idade
Nem é o nosso amor
É a memória que suja
A história que enferruja
O que passou
Não é você
Nem sou mais eu
Adeus meu bem
Adeus! Adeus!
Você mudou, mudei também
Adeus amor! Adeus!
E vem!"
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder
Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder...(2x)

Letrista de grandes sucessos com vários parceiros Torquato foi autor de sucessos como "Pra dizer adeus" com Edu Lobo e gravado por Maria Bethania, " Geléia Geral", "Louvação" e "Marginália II" "Soy Loco por ti América" ( Homenagem à Che Guevara que havia sido assasinado naquele ano de 1967) com Gil e gravada por ele.


 Marginália II (Torquato Neto)

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo



Em 1992, outro grande amigo de Torquato Neto, o cineasta Ivan Cardoso, produziu e apresentou um programa especial sobre o poeta no programa Documento Especial. Postamos aqui este programa histórico com diversos depoimentos dos amigos e admiradores deste grande poeta maldito.



 Torquato Neto por ele mesmo em sua poesia Cogito:

Cogito 

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou

agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou

presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou

vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.



Jards Macalé e o ator Paulo José em homenagem à Torquato Neto




A obra de Torquato Neto
Composições
* A coisa mais linda que existe (com Gilberto Gil)
* A rua (com Gilberto Gil)
* Ai de mim, Copacabana (com Caetano Veloso)
* Andarandei (com Renato Piau)
* Cantiga (com Gilberto Gil)
* Capitão Lampião (com Caetano Veloso)
* Coisa mais linda que existe (com Gilberto Gil)
* Começar pelo recomeço (com Luiz Melodia)
* Daqui pra lá, de lá pra cá
* Dente por dente (com Jards Macalé)
* Destino (com Jards Macalé)
* Deus vos salve a casa santa (com Caetano Veloso)
* Domingou (com Gilberto Gil)
* Fique sabendo (com João Bosco e Chico Enói)
* Geléia geral (com Gilberto Gil)
* Go back (com Sérgio Britto, dos Titãs)
* Juliana (com Caetano Veloso)
* Let’s play that (com Jards Macalé)
* Lost in the paradise (com Caetano Veloso)
* Louvação (com Gilberto Gil)
* Lua nova (com Edu Lobo)
* Mamãe coragem (com Caetano Veloso)
* Marginália II (com Gilberto Gil)
* Meu choro pra você (com Gilberto Gil)
* Minha Senhora (com Gilberto Gil)
* Nenhuma dor (com Caetano Veloso)
* O bem, o mal (com Sérgio Britto, Titãs)
* O homem que deve morrer (com Nonato Buzar)
* O nome do mistério (com Geraldo Azevedo)
* Pra dizer adeus (com Edu Lobo)
* Quase adeus (com Nonato Buzar e Carlos Monteiro de Sousa)
* Que película (com Nonato Buzar)
* Que tal (com Luís Melodia)
* Rancho da boa-vinda (com Gilberto Gil)
* Rancho da rosa encarnada (com Gilberto Gil e Geraldo Vandré)
* Todo dia é dia D (com Carlos Pinto)
* Três da madrugada (com Carlos Pinto)
* Tudo muito azul (com Roberto Menescal)
* Um dia desses eu me caso com você (com Paulo Diniz)
* Veleiro (com [[Edu Lobo)
* Vem menina (com Gilberto Gil)
* Venho de longe (com Gilberto Gil)
* Vento de maio (com Gilberto Gil)
* Zabelê (com Gilberto Gil)
Discografia
* Tropicália ou panis et circensis (1968) – Philips LP
* Os últimos dias de Paupéria (1973) – Eldorado Editora Compacto simples
* Torquato Neto – Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia (1985) – RioArte/Prefeitura do Rio de Janeiro e Governo do Estado do Piauí LP
* Todo dia é dia D (2002) – Dubas Música CD
Bibliografia
Torquato Neto. Os Últimos Dias de Paupéria. (Org. Ana Maria Silva Duarte e Waly Salomão), Rio de Janeiro: Max Limonad, 1984.
Torquato Neto. Torquatália – do Lado de Dentro: Obra Reunida de Torquato Neto (vol. 1). (Org. Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005.
Torquato Neto. Torquatália – Geléia Geral: Obra Reunida de Torquato Neto (vol. 2). (Org. Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005.
 Pra mim Chega - A Biografia de Torquato Neto de Toninho Vaz, que também já biografou o poeta Paulo Leminski.
Filmografia
Como ator
* Nosferatu, de Ivan Cardoso. Como protagonista, “Vampiro” (1970).
Referências
* Torquato Neto. – Verbete sobre o escritor no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
* Toninho Vaz. Pra Mim Chega: a Biografia de Torquato. São Paulo: Casa Amarela, 2005.
* Paulo Henriques Brito. Torquato Neto. Centro de Cultura Alternativa/ Rio Arte / Projeto Torquato Neto/ Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, 1985.
Encerramos  nossa homenagem com uma das mais belas poesias-canções de Torquato Neto, interpretada com maestria por Gilberto Gil:  Todo dia é dia D