Publicamos hoje o belo artigo do colunista de O Globo, Arthur Dapieve sobre a reedição remasterizada do segundo Disco de Sérgio Sampaio,"Tem que acontecer". O artigo foi publicado no Jornal O Globo do dia 31/08/2012
Sergio Sampaio era esse letrista sarcástico e, também, um desconcertante melodista e um grande voilonista.
Não
consigo me curar da reedição remasterizada em CD do álbum “Tem que
acontecer”, de Sergio Sampaio. Fui sugado po seu universo paralelo, no
qual dor nunca foi apenas uma rima — mas também uma prima-irmã — de
humor. Colado no cantor e compositor capixaba antes ainda da sua morte
por pancreatite, aos 47 anos, em 1994, o rótulo “maldito” tende a
obscurecer o modo como ele zombava da própria danação.
Escute-se,
no disco de 1976, o blues “Que loucura”, avô das letras do Harmonia
Enlouquece, grupo formado no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro, na
Saúde. “Fui internado ontem”, canta Sampaio. “Na cabine 103/ Do Hospital
do Engenho de Dentro/ Só comigo tinham dez/ Eu tô doente do peito/ Eu
tô doente do coração/ A minha cama já virou leito/ Disseram que eu perdi
a razão/ Eu tô maluco da ideia/ Guiando carro na contramão/ Saí do
palco e fui pra plateia/ Saí da sala e fui para o porão.”
Sampaio
era esse letrista sarcástico e, também, um desconcertante melodista e
um grande violonista. Nasceu em 1947, em Cachoeiro de Itapemirim. Era
filho de maestro. Um tio fizera parte do Trio de Ouro, que acompanhava
Herivelto Martins. Um primo compôs “Meu pequeno Cachoeiro”, celebrizada
pelo conterrâneo Roberto Carlos.
Como
Roberto, seis anos mais velho, Sampaio veio tentar a sorte no Rio.
Diferentemente dele, não se deu bem. (Mais tarde, o
homenagearia/sacanearia em “Meu pobre blues”.) Contudo, em 1971, na hora
de gravar o LP-manifesto “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta
Sessão das 10”, um produtor da antiga CBS, Raul Seixas, convocou
Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star. O disco saiu, mas Raul foi
demitido.
No ano seguinte, Sampaio
participou do 7º Festival Internacional da Canção com uma balada
tristonha com refrão de marcha-rancho, “Eu quero é botar meu bloco na
rua”. Como em “Que loucura”, a letra fazia ironias autobiográficas,
apesar de não se esgotar nelas: “Há quem diga que eu dormi de touca/ Que
eu perdi a boca, que eu fugi da briga/ Que eu caí do galho e que não vi
saída...” O compacto vendeu 500 mil cópias.
Então,
você pensa, um LP chamado “Eu quero é botar meu bloco na rua” e
produzido por Raul deve ter arrebentado em março de 1973, certo? Errado.
Nem o fato de a faixa-título ter sido cantada no carnaval nem a
qualidade do samba “Cala a boca, Zebedeu” (composto por Raul Gonçalves
Sampaio, o pai de Sergio) ou do blues “Não tenha medo, não!” salvaram o
disco do fracasso comercial.
O bode foi
tamanho que o LP “Tem que acontecer”, produzido por Roberto Moura, só
apareceria após três anos. Dessa vez, a faixa-título era uma lição de
fatalismo (“Se ninguém tem culpa/ Não se tem condenação/ Se o que ficou
do grande amor é solidão/ Se um vai perder/ Outro vai ganhar/ É assim
que eu vejo a vida/ E ninguém vai mudar”) arrematada pela matadora
autoironia de Sampaio (“Mas não posso fazer nada/ Eu sou um compositor/
Popular”). O lindo arranjo de João de Aquino tinha, além de uma pequena
orquestra de cordas, o flautista Altamiro Carrilho, falecido este mês.
Pela
idade, Sampaio não tinha como ficar alheio ao rock e ao blues
(resgatado por Beatles e Stones), mas transava de tudo. Tinha a mão
particularmente boa para sambas. Os seus já nasciam como se fossem
regravações de clássicos dos anos 1940 ou 50. “Tem que acontecer” abria
com um, “Até outro dia”, e fechava com outro, “Velho bandido”, entre
outros. A reedição da Warner/Discobertas traz três faixas-bônus,
inclusive “História de boêmio”, de subtítulo “Um abraço em Nelson
Gonçalves”.
Sampaio lançaria apenas mais um
LP, o independente “Sinceramente”, em 1982, apoiado por amigos como
Renato Piau, Sérgio Natureza e Luiz Melodia, com quem fez um dueto em
“Doce melodia”. A faixa seguinte, a 11ª e última, chamava-se “Faixa
seis”. Nela, mais uma vez, Sampaio embaralhava carreira, amor e humor
negro: “Você hoje para mim/ (...) é a faixa seis/ do lado B/ do meu
último LP./ Aquela que o programador de rádio nunca toca/ Aquela que o
divulgador do disco evita (...)”.
Referências?
Embora não fosse nordestino, algo mourisco no canto de Sampaio o
aproxima de Caetano, Fagner e Ednardo — e o torna atraente para fãs como
Lenine e Zeca Baleiro. Este construiu-lhe em 2006 um CD póstumo,
“Cruel”, a partir de demos, inclusive da assombrosa “Roda morta”. Além,
claro, de ter feito a sentida versão para “Tem que acontecer” no
álbum-tributo “Balaio do Sampaio”, de 1998. Se necessárias referências
roqueiras para localizar Sampaio, digo que ele me põe para pensar tanto
no grupo psicodélico Love, dos anos 1960, quanto no padroeiro de todo
verso espremido na melodia, Bob Dylan. Aliás, apesar dos arranjos
elaborados, seus dois primeiros (e melhores) discos estão mais para a
sinceridade descarnada, quase suicida, de “Lóki?”, de Arnaldo Baptista,
um maldito que sobreviveu a si próprio.
Publicado no Jornal O GLOBO 31/08/2012
Abaixo postamos algumas das melhores canções do antológico segundo disco de Sérgio Sampaio; começamos pela música título "Tem que acontecer", depois "QUe Loucura",música composta em homenagem ao poeta e letrista Torquato Neto; Cada Lugar na sua Coisa", musica que é o título do nosso blogo; e ainda "Cabras Pastando", "Quatro paredes" e "Velho Bandido".
"Tem que acontecer"